quarta-feira, 22 de junho de 2016

Amigo e inimigo: quem é quem?




Na política, os conceitos de amizade e inimizade são ambíguos. Tanto que constituem temas clássicos, merecendo uma infinidade de análises e sentenças.

O realismo político desconfia muito da amizade. Este é um sentimento próprio das relações pessoais, indivíduo a indivíduo, intrinsecamente subjetivo, destituído de interesses, fundado na afeição. Por sua própria natureza, então, acomoda-se mal no mundo mais impessoal e "interesseiro" da política.

O pensamento "realista" prefere sempre lidar com interesses do que com sentimentos. Interesses são definidos, quantificáveis, suscetíveis de negociação. Sentimentos são ocultos, arbitrários, volúveis e demandam uma reciprocidade não quantificável.

Segundo o rei Henrique IV: "A maneira mais certa de desfazer-nos de um inimigo é fazer dele um amigo". A atmosfera do poder, se não torna a amizade impossível, por certo impõe tensões muito desagregadoras a ela. No mundo em que o governante desenvolve suas atividades não há muito espaço para amizades.

Amigos exigem muito e esperam muito, na forma de atenção, consideração e compreensão.

Amigos tendem a atribuir um significado ao conceito de lealdade do chefe para com eles, que extrapola em muito os limites toleráveis para quem tem a responsabilidade de governar.

Amigos exigem uma solidariedade irrestrita e imediata a qualquer momento em que entrem em dificuldades, que será paga pelo governante em "moeda política", que com tanto esforço acumulou. Amigos, pois, tendem a desenvolver expectativas exageradas e desproporcionais do governante.

Tais expectativas - compreensão, paciência, consideração, solidariedade irrestrita - são perfeitamente justas e adequadas no contexto de relações pessoais privadas. Transpostas para o mundo da política, que na sua lógica própria não as reconhece, tornam-se politicamente onerosas e até tirânicas. Por estas razões, amigos no governo estão sempre à "beira da decepção" com seu amigo poderoso, na iminência do rompimento da amizade.

Há sempre alguns amigos que são capazes de fazer a distinção entre as duas situações - amizade na vida privada e na vida pública. São poucos, mas são valiosos. Você os reconhece porque eles não lhe criam problemas. Antes, resolvem-nos, mesmo ao custo de prejuízo pessoal, e você só fica sabendo muito depois.

A outra marca deles é a de não opor obstáculos e não desenvolver hostilidade com os novos amigos ou colaboradores que você atrai para seu círculo mais próximo. Destes amigos, o governante deve cercar-se. Eles serão o apoio mais importante nos piores momentos. Dos outros deve afastar-se.



Por Francisco Ferraz


quarta-feira, 25 de maio de 2016

A arte do engano

Fonte: Do Livro Aplicando Maquiavel no Dia a Dia - Autor: Fernando Gregório



Quando o comando descobre que não poderá resistir às pressões dos comandados, começam a “fabricar a fama” de um elemento seu e trabalham para torna-lo líder para, sob sua sombra, satisfazer seus interesses.

É o típico caso de muitos candidatos políticos, cuja imagem é fabricada, com a ajuda da mídia, pelos grupos poderosos para assumir o poder político em benefício de poucos.

Outro exemplo são os conhecidos “pelegos”, os sindicalistas subservientes fabricados pelo patronato e infiltrados nos sindicatos operários para atender os interesses de quem está no poder.

Aquele que não se prepara para os embates da vida, que não sabe ter firmeza nas situações críticas que o mundo lhe reserva, será fatalmente refém daqueles que souberam se aprontar, serão comandados por aqueles que se prepararam.

Ninguém deve ficar sentado no banco da praça à espera de grandes oportunidades, a sorte só ajuda quem a procura. Quem não estiver preparado para o futuro vai perder espaço, vai sofrer decepções, vai ser um comandado, perderá o poder, aquele que se prepara, conquistará. Quem tem a sabedoria e sabe aplicá-la, terá o poder.

Não se pode querer que aquele que se preveniu, que planejou com antecedência, que se instruiu, venha obedecer de boa vontade àquele que não é capacitado. Haverá sempre controvérsia.

Daqui uns dias teremos eleições. Aí precisamos avaliar bastante o quadro político e os atores que se apresentam. Alguns líderes políticos se apresentarão como o diferente, o salvador, o amigo de todos. Todos merecem nossa atenção, no sentido de avaliarmos sua conduta, o comportamento, as origens, as palavras, o compromisso, as pessoas que o cercam, enfim seu perfil.

Vigiai...! 

Como diz a Bíblia: Conhecerás a verdade e a verdade vos libertará“.


sexta-feira, 13 de maio de 2016

Incerteza – Elimar Pinheiro do Nascimento

Professor do Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento Sustentável da UNB

Sei que a maioria dos brasileiros está otimista ou esperançoso com o governo que começa.  E a criticidade da situação econômica, não enseja outros sentimentos. Imagina-se que a situação é tão ruim que nada poderá ser pior. Contudo, a incerteza é o que impera entre nós. Quem poderia pensar que um presidente da Câmara conhecido como corrupto fosse ser substituído por um paspalhão, conhecido agora como Zé (a)nulidade?  Por isso, toda precaução é pouca.

Não é do meu feitio desarrumar festas alheias. Sinto-me, porém, na obrigação de citar alguns senões neste processo politico que se inicia hoje, quinta, 12 de maio. Começando pelo folclórico.

Fiquei surpreso que nada de extraordinário aconteceu entre quarta e quinta feira. Tudo transcorreu conforme o script. Não houve briga no senado, não houve quebra-quebra nas ruas, nem as “massas” vieram se despedir da Presidente. A marcha do Palácio do Planalto ao Palácio da Alvorada gorou. O número de pessoas em frente ao Congresso na noite de quarta e madrugada de quinta era pequeno, e pela primeira vez os adeptos de Dilma eram maioria. Houve empurrões, insultos e pequenas brigas aqui e acolá, sobretudo em São Paulo. Exceções que confirmam a regra. Muito positivo, mostra que a cultura política democrática não morreu, como imaginavam alguns. Os ritos estão sendo observados.

Contudo, faltou recato, como diz Josias de Souza, a troupe do Temer na chegada ao Palácio do Planalto. É o mínimo que se pode dizer. Um processo de impeachment é sempre traumático para um país. Não é algo normal, nem muito menos banal. Exige-se sobriedade. Fechando os olhos veio-me na mente uma ceia medieval, em que um bando de homens come com as mãos e limpa a boca com as mangas do casaco. Lastimável.

Faltaram mulheres no novo ministério. Zero. É o sinal do machismo que reina na política. Não ter nenhuma mulher no ministério é no mínimo uma falta de sensibilidade com as mudanças do tempo. E um sinal de que talvez os novos tempos não sejam compreendidos pelo Presidente em exercício. Imperdoável. E para completar faltaram negros. Fiquei com uma impressão de um governo dos anos 1950.

Faltou racionalidade no enxugamento do Ministério. Não tem sentido dissolver o ministério da cultura na educação e manter o ministério do turismo.  Ambos, e mais o esporte, deveriam estar sob um novo ministério: o da economia criativa. Qual a função relevante do ministério da integração?  Ou do Trabalho? Porque a comunicação vai contaminar o ambiente de ciência e tecnologia, e não integra o de transporte? Por que indústria não se integra com Minas e Energia? Enfim, possibilidades distintas da que foi adotada. Sem dúvida a decisão não foi pensada, talvez pela pressa.

Excedeu-se em políticos. E velhos e maus políticos. A cara do Parlamento. Muitos já pertenciam ou pertenceram aos governos pretéritos. Muitos estão na politica por negócios. Vários investigados. Suspeitos. Amanhã réus. A fama da grande parte é a pior possível. Em cada um de seus respectivos estados a fama é de homens de negociatas, de corrupção e outros mais. Não todos, mas a maioria. Ruim. Decepciona parte da opinião pública, que pensava, ou almejava, um governo de competência e não de simples arranjo.

A situação econômica é desastrosa e não será fácil fazer o País retomar o crescimento. A recessão é forte e o desequilíbrio das contas públicas é imenso. A receita cai e a dívida pública sobe, a cada dia.  O número de desempregados ainda deve crescer. E a má qualidade dos serviços públicos tem deixado o povo absolutamente insatisfeito. Insatisfação que se voltará para o atual governo se algo importante não for feito. Lembremo-nos que os tempos administrativo e politico nem sempre são compatíveis. E se as ruas se rebelarem a pressão sobre o Parlamento crescerá, aumentando as chances que votos mudem de direção. Alto risco.

Finalmente, há uma variável independente: a lava jato. Vários dos peemedebistas, e eles são um terço do governo, estão na linha de tiro. E entre elas figuras importantes, como o ministro do Planejamento. E se Cunha, ou outro, resolve fazer uma delação premiada, o presidente em exercício não será contaminado? Ademais há um processo no TSE com indícios claros de propina da Petrobrás na chapa vencedora da qual participava o presidente em exercício. Ou seja, dinheiro escuso.

Há muitas incertezas e nuvem carregadas, para ficarmos simplesmente otimistas. Esperançosos talvez, mas com parcimônia, pois, a situação é grave e os atores, medíocres.


PS. Neste mesmo dia enviei um artigo para o blog da politica brasileira, de título – Os desafios do governo Temer (mas as vezes o editor inventa de mudar o titulo), chamando a atenção para o que espera o governo Temer em três esferas, o da economia, o da governabilidade e o da opinião pública.

terça-feira, 15 de março de 2016

O valor da familia

Não há felicidades e nem vitória se não tivermos uma família como motivadora. 



Pessoas que vemos crescer, aprendemos a respeitar e tê-las como família. Nos motivam e nos faz refletir sobre nossos atos e atitudes...Pessoas simples, humanas e com outros sonhos a realizar...Os adjetivos se encaixam numa família que aprendi a gostar e me tornar parte dela. Marcel, Dora, Racibe, Amaral e Neto.



Tenho certeza que nenhuma pessoa pode ser plenamente vitoriosa se não tiver uma boa família, Pai, mãe, irmãos, esposa e filhos. Grande parte de minhas conquistas, além da ajuda de Deus, devem ser tributadas à minha esposa, Joelma Catão, que tem sido uma companheira maravilhosa, e a meus filhos Maria de Lourdes e Luis Caetano.



Depois que crescemos, construímos nossa própria família...Trazemos os princípios, a vida cristã, os ensinamentos, o modo de ver e encarar a vida, passados por nossos Pais enquanto estamos com eles, a base...Obrigado pela boa educação, pelos irmãos e pelo acolhimento.

A fé e a família são primordiais para a conquista de vitórias.




Josman, Luis Caetano e Joelma Maria

Joelma Catão e Maria Verônica


 Pai e Filho, nas margens do Rio Tarauacá


Filho e Mãe

Pai e Filho


Familia reunida



Em fim...

segunda-feira, 14 de março de 2016

Operação Casca de Banana - Por Walter Bom Braga


O golpe, a princípio estava estruturado na seguinte cronologia.
Na quinta-feira dia 10/03, as revistas Veja ou Época publicariam a delação manipulada de Delcídio, que foi originada em dezembro, mas estava reservada para ser revelada essa semana.
No dia seguinte, na sexta-feira dia 11/03, Sérgio Moro prenderia Lula.
No sábado dia 12/03, a convenção do PMDB abandonaria o governo.
No domingo dia 13/03, o povo inflado pela intensa cobertura da mídia, gerava clamor nacional, e na próxima semana votavam o impeachment derrubavam a Dilma e talvez soltassem o Lula.
O PMDB colocava tucanos no governo e fechava a Lava Jato, só com nomes petistas e cassava a legenda do PT. Porém algo deu errado, algo vazou. A jornalista que publicou na Revista ISTO é namorada o ex-ministro da justiça, Eduardo Cardozo. Essa revista nunca tinha publicado furos da lava jato. Suspeito que o governo, antecipou o furo para desarmar a bomba e ganhar uma semana para defesa.
Assim tudo perdeu a cronologia inicial. Dessa forma, Moro teve antecipar a prisão de Lula em uma semana, e tentou prender o Lula na semana passada, mas algo deu errado. Os políticos de oposição e a mídia golpista já sabiam com antecedência, tanto que o Jair Bolsonaro estava em Curitiba com fogos de artifício para receber o Lula algemado. O redator da Época disparou um Twitter de madrugada dizendo que o dia seria cheio de paz e amor, no dia da condução coercitiva de Lula.
Há rumores de que foi a Aeronáutica, que impediu que o Lula fosse preso pelos agentes da Polícia Federal de Sérgio Moro, cercando o avião que levaria o Lula para Curitiba. Porque eles fariam isso? Uma ordem dessas só pode ter vindo do alto escalão e não poderia ser realizada sem um bom embasamento ou a PF poderia acusar o militar que deu essa ordem de conspiração e obstrução da justiça. O que ocorreu depois? Sérgio Moro botou a viola no saco e começou a afinar o discurso.
Como a prisão de Lula foi debelada, tiveram que apelar para um plano B, que consistia no pedido de prisão realizado por Cássio Conserino, na quinta-feira dia 10/03, com a esperança de que Lula fosse preso no dia 11/03 e recolocar o golpe nos trilhos. Para isso foi escolhido uma juíza inexperiente para ceder à pressão dos golpistas.
O perfil dessa juíza não condiz com a importância da decisão. Sabemos agora que a juíza negou o pedido de prisão do Lula, resolvendo tirar o dela da reta. A decisão estava marcada inicialmente para segunda-feira, muito provavelmente ela foi pressionada para antecipar a decisão, mas foi esperta e não cedeu à pressão. Entretanto, apesar de tudo ter sido muito bem tramado o governo está conseguindo desmantelar, pois Lula continua solto, não foi preso as vésperas das manifestações.
O que ainda não entendi foi porque todos os atores que há um ano vem tramando o golpe foram unanimes em criticar o pedido de prisão de Lula emitido pelo Ministério Público de São Paulo Ou fizeram isso para camuflar o ímpeto golpista ou para mostrar isenção ou porque o governo pegou eles em flagrante. Deve ser uma dessas três alternativas.
Na coletiva do governo, Dilma estava com um tom irônico e sarcástico, ela deixou uma suposta pista para os jornalistas, acho eu. Ela no final disse algo assim: “eu iria falar em inglês com vocês, mas eu não lembro como se fala casca em inglês, isso é uma casca de banana” Ela falou isso diretamente para os jornalistas da Globo e das demais mídias golpistas, que insistiam em polemizar na pergunta se Lula seria Ministro ou não. O engraçado foi que ela falou isso com o sorriso mais sarcástico que já vi na vida.
No meio da tarde o Ricardo Noblat, publica um Twitter dizendo que o golpe era engendrado pelos políticos corruptos que queriam derrubar a Dilma para acabar com a Lava Jato, antes que chegassem neles. Essa mudança de ímpeto de um dos principais ativistas do golpe é realmente muito estranha. Podem ter certeza que tem caroço nesse angu e que em breve teremos grandes novidades.
Eu posso estar viajando, ou até mesmo delirando, mas acho que o governo está com uma investigação contra os golpistas de nome “casca de banana” Isso explica a mudança de tom de Ricardo Noblat de ativista do Golpe para defensor da Dilma nos minutos finais que antecedem os movimentos importantes e decisivos.
Acho que a Dilma colocou a Agencia Brasileira de Inteligência (ABIN) para investigar os golpistas e ela conseguiu apurar as provas necessárias para debelar o golpe. Depois que o Temer escreveu aquela carta infame para a Dilma, houve boatos, de que Temer desconfiava que a Dilma tinha colocado a ABIM em cima dele.
Vamos aguardar amanhã como será o desfecho da reunião do PMDB, se eles vão romper com o governo conforme intencionavam, quando marcaram a reunião às vésperas das manifestações, ou se vão ser intimidados pela falha da operação de não prender o Lula.
O Lula, mesmo estando acuado com a essas ameaças negou aceitar a indicação para ministro e assim abriu mão de ganhar a proteção do foro privilegiado, e já marcou presença na passeata do dia 18/03. Eu acredito que nas vésperas dessa passeata a verdade virá à tona e os golpistas serão debelados. É esperar para ir ajustando as análises à medida que novas informações virão a público. Mas eu acredito que tem algo muito grande e estranho se movimentando no fundo.
Acredito piamente na tentativa de golpe, que foi montado pelos políticos do PMDB e do PSDB com da intensa participação da mídia golpista (PIG), com a flagrante participação do judiciário seletivo e de uma parcela da Polícia Federal. Acho que o golpe deve ser liderado pelo Eduardo Cunha. A cada hora, mais um indício sugere que a coisa é maior do que a gente imaginava.
Vamos aguardar novas pistas. Se eu não estiver certo, amigos, se o governo não tiver agido de forma preventiva, se a Dilma não tiver partido para o ataque. Amanhã, quando o PMDB, abandonar o governo (se abandonar), será quase a vitória do impeachment, mesmo sem a prisão de Lula.

Sabemos que o impeachment não possui lastro jurídico para isso. Se eles aprovarem o impeachment, e com a participação do PMDB eles vão conseguir, vamos ter que ir para as ruas e botar esse golpistas para correr na marra. Entretanto, se a Dilma tiver agindo como eu suponho, não será a Dilma que vai escorregar na casca de banana, serão eles.


Por que Lula Deveria Sim Ser Ministro – Por Paulo Nogueira



“Ficaria decepcionada se o Lula aceitasse um convite para ser ministro”, ouço de minha mulher, Erika.

Não tinha ainda refletido detidamente sobre o assunto, mas a frase de Erika me estimulou a fazer isso.

Por que alguém progressista como ela se decepcionaria?

A resposta padrão é mais ou menos esta: Lula ganharia foro privilegiado e se livraria das garras de Moro, mas mostraria medo. Ficaria claro, para muita gente, que ele tem algo a esconder.

Ora, ora, ora. Não poderia discordar mais.

Se Lula estivesse numa disputa com Mujica ou com o papa Francisco, eu concordaria.

Mas ele está medindo forças – involuntariamente – com forças que lembram não Mujica, não Francisco, mas Al Capone.

Você tem que jogar o jogo conforme seu adversário, e não de acordo com seus sonhos. Esta é a realidade. Pode não ser idílica, ou utópica, ou romântica. Mas esta é a única realidade que temos.

Avalie os escrúpulos e o caráter dos que estão do outro lado. A Globo e a família Marinho, Aécio, FHC, a Veja e os Civitas, a Folha e os Frias, Moro e a PF, e isso para não falar dos Eduardos Cunhas e dos Conserinos.

Eles querem preservar seus formidáveis privilégios, e para isso buscam loucamente um golpe sob os pretextos mais esdrúxulos.

Desde a saída dos resultados, a vitória de Dilma é contestada da maneira mais infame possível. A desculpa A não colou? Vamos para a B. Também ela não vingou? Passemos para a desculpa C. E nisso foi um alfabeto inteiro de pretextos que escondiam uma única coisa: um golpe. Um crime de lesademocracia que jogaria, ou jogará, o país mais de meio século para trás.

Os índios americanos entraram na história por episódios de resistência épicos em que opunham pedrinhas às balas dos predadores brancos.

É lindo, é comovente, mas é claro que eles usariam outras armas se as tivessem.

Contra predadores, e é disso que se trata, você tem que ajustar sua estratégia à índole dos inimigos.

Lula já errou demasiadamente nisso.

Por exemplo. FHC nomeou um amigo para a Procuradoria Geral da República, o tristemente famoso Brindeiro, engavetador de qualquer coisa que pudesse embaraçar a presidência.

Lula se recusou a nomear uma réplica de Brindeiro. Colocou o primeiro da lista que lhe foi passada pelos procuradores.

Deu no que deu.

No STF, ele fez o mesmo. FHC indicou juízes como Gilmar Mendes. Uma das primeiras indicações de Lula foi Eros Grau, de conhecida simpatia pelo PSDB. (Fez campanha por Aécio em 2014).

Isso não é republicanismo. É ingenuidade, é tolice, é não enxergar do que são capazes os que detestam você.

A direita prega para os rivais um republicanismo que ela jamais praticou.

A hora dura pede ousadia, pede inovação. Lula como ministro é uma resposta a quem deseja apenas tirar Dilma do jeito que for e impedir que Lula concorra em 2018.

A reação popular seria esta. Os que detestam Lula continuariam a detestá-lo. Os que o amam continuariam a amá-lo.

Que as urnas digam, em 2018, qual destes grupos é maior.


Paulo Nogueira, é jornalista, fundador e diretor do site de notícias e análises Diário do Centro do Mundo


quinta-feira, 10 de março de 2016

Três Mestres de Vida



O importante não é viver,
mas viver segundo o bem.
SÓCRATES

Há mais alegria em dar
do que em receber.
JESUS

Que todos os seres sejam felizes.
Nascidos ou ainda por nascer,
que sejam todos perfeitamente felizes.
BUDA


Sócrates, Jesus e Buda nos ensinam a viver. O testemunho de suas vidas e o ensino que eles propõem é universal. A mensagem deles centra-se no ser individual e em seu crescimento, sem jamais negar a necessária inserção no corpo social. Sugere uma sábia dosagem de liberdade e de amor, de autoconhecimento e de respeito pelo outro. Embora se enraíze de diversas formas em bases de crenças religiosas, ela nunca é friamente dogmática: sempre tem sentido e recorre à razão. E também fala ao coração.

Jesus chega de manhã cedo ao átrio do Templo de Jerusalém e ensina à multidão. Surgem os escribas e fariseus, quer dizer, os notáveis religiosos atentos ao respeito à Lei. Eles põem diante de Jesus uma mulher surpreendida em flagrante delito de adultério, e lembram a ele que a Lei de Moisés ordena o apedrejamento como castigo para esse delito. O objetivo deles é pôr Jesus à prova. Desconfiam de que Jesus se recuse a mandar aplicar a Lei determinada por Moisés.

Em vez de responder, Jesus se abaixa e traça algo na terra. Ninguém sabe o que ele escreveu, mas, segundo sabemos, são as únicas palavras que ele escreveu de próprio punho. É claro que, abaixando-se, ele recusa o confronto violento do olhar com seus interlocutores. Ele deixa passar um momento de silêncio, se ergue e lhes diz: “Quem dentre vós estiver sem pecado, seja o primeiro a lhe atirar uma pedra.” Em seguida, sempre evitando o confronto, abaixa-se e continua a escrever na terra.

Os acusadores da pecadora se retiram então um a um, “A começar pelos mais velhos”, diz o Evangelho. Ficando sozinho diante da mulher, Jesus pôde então erguer-se. Ele não procurou humilhar seus acusadores, encarando-os; ele se apagou, retirou-se, para deixá-los a sós com sua consciência. Foi também o melhor modo de salvar a vida daquela infeliz que foram buscar ao amanhecer no leito do amante, e que eles arrastaram, provavelmente nua, até o átrio do Templo.

Fazendo um círculo em torno deles, a multidão e seus discípulos assistiram em silêncio, cuja intensidade dramática se pode adivinhar. Somente então ele se dirige à acusada: “Mulher, onde estão eles? Ninguém te condenou?” Ela respondeu: “Ninguém, senhor.” Disse então Jesus: “nem eu te condeno; vai, e de agora em diante, não peques mais” (João, 8:1-11).

Jesus se recusa, pois, a aplicar a pena prevista pela Lei. Evidentemente, ele reconhece a realidade do erro, já que lhe pede para não mais pecar. Mas certamente julga a pena desproporcional e sente compaixão pela mulher, como, aliás, por todos os pecadores que ele encontra. Com esse gesto, ele testemunha que o perdão suplanta a Lei e, sobretudo, que ele é infinitamente mais eficaz para salvar as almas de sua cegueira.

Jesus mostra que o amor e a compaixão estão acima da justiça. É preciso, de certo, que haja regras, leis, limite, e em parte alguma ele contesta a necessidade disso. Para ele, porém, a aplicação da justiça se deve fazer com misericórdia, levando-se em conta cada pessoa, sua história, o contexto, e também a intenção, o que se passa na intimidade da alma, que ninguém pode sondar e muito menos condenar de fora.

Essa questão permanece de uma atualidade candente. Pode-se constatá-lo por um caso recente (março de 2009), acontecido no Brasil, o caso da menininha de 9 anos que engravidou de gêmeos depois de ter sido violentada pelo padrasto. O arcebispo do Recife excomungou a mãe e a equipe médica que praticou o aborto para salvar a vida da menininha. O cardeal Batista Re, prefeito da Congregação dos Bispos e braço direito do papa Bento XVI, confirmou a sentença, explicando que o arcebispo somente tinha posto em prática o direito canônico que excomunga, de fato, qualquer pessoa que pratique o aborto, por qualquer motivo que seja.

Imaginemos a cena evangélica transportada para hoje: os cardeais e os especialistas em Direito Canônico fazem comparecer a mãe da menininha e o médico diante de Jesus e lhes dizem: “A Lei nos ordena excomungá-los. O que vocês acham?” Facilmente adivinhamos o resto... E pensamos que, decididamente, a história não para de se repetir!

Jesus veio dizer que o amor dá todo o sentido à Lei, que a justiça sem misericórdia perde em humanidade e sentido, e que, no fim das contas, só existem casos particulares.


Jesus explica que, quando o amor divino, dado pela graça com a cooperação do homem, se enraíza nos corações, deixa de ser um esforço. Ele jorra como uma água viva” (João, 4), dá liberdade, felicidade, alegria. Não é mais o prazer ligado à satisfação do desejo. É a alegria do dom. Uma experiência que todos podem ter: a alegria de dar gratuitamente, sem nada esperar em troca, nem mesmo um agradecimento ou um sinal de gratidão. É uma experiência que, todos os dias, têm os que consagram totalmente a vida a Deus ou ao próximo.

A busca do “Ser” e da responsabilidade - individual e coletiva - pode nos salvar de nós mesmos. É o que nos ensinam, há mais de dois milênios, cada um a seu modo, Sócrates, o filósofo ateniense, Jesus, o profeta judeu palestino, e Sidarta, chamado Buda, o sábio indiano.

Entre os pontos comuns de suas vidas, um é bastante singular: Buda, Sócrates e Jesus não deixaram nada escrito. 

Muito bom esse Livro.

Livro: Sócrates, Jesus, Buda
Autor: Frédéric Lenoir